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Culto

Falecera a Rainha D. Isabel em Estremoz, a 4 de Julho de 1336 e, no cumprimento das suas últimas vontades, logo se procedeu à trasladação do seu corpo para Coimbra, onde chegaria dias depois, sem mostrar qualquer sinal de decomposição, antes exalando, segundo a biografia com toda a probabilidade atribuída a D. Fr. Salvado Martins, que a lenda depois largamente confirmaria, um suavíssimo perfume. Tendo sempre presente a acção da Rainha no exercício da desvelada caridade que praticara em vida e profundamente impressionado pela incorruptibilidade do seu corpo, não tardou o povo a dar-lhe foros de santidade, fazendo do seu túmulo, na igreja do velho Mosteiro de Santa Clara, lugar de oração frequente e da sua memória via de intercessão para levar até junto de Deus as suas necessidades. Prova desse culto espontâneo, mas muito intenso, é o registo dos milagres que lhe iam sendo atribuídos e que pouco a pouco se juntaram à sua biografia. E é por demais significativo que a cerimónia nupcial do futuro Rei D. Duarte com Leonor de Aragão se tenha celebrado, a 22 de Setembro de 1428, na capela do coro velho da igreja de Santa Clara, junto do monumento que encerrava os seus despojos.

E foi a intensificação desse culto que levou o Rei D. Manuel I a solicitar à Santa Sé a sua beatificação, concedida pelo Papa Leão X, por breve de 15 de Abril de 1516, que, como se compreende, não só tornou oficial aquele culto espontâneo, como lhe deu novo incremento e mais disciplinada expressão, até pelo facto de tornar necessário, na diocese de Coimbra e na Capela Real, um ofício próprio, tanto na missa, como nas horas canónicas, cujo texto foi redigido por André de Resende. A participação oficial da Universidade de Coimbra nesse culto, vai trazer nova e mais alta expressão à veneração da Santa Rainha. Com efeito, D. João III, por cartas de 9 de Setembro de 1556, ordenava ao Reitor da Universidade, Doutor Afonso do Prado e ao Reitor do Colégio das Artes que em cada ano ambas as instituições participassem oficialmente nas celebrações que, no dia da sua festa litúrgica, se realizassem no Mosteiro em honra de Santa Isabel.

Cerca de 1560, por decisão da Abadessa D. Ana de Meneses, e com o patrocínio da Rainha D. Catarina, fundava-se uma Confraria sob a sua invocação, cujos estatutos foram logo aprovados e confirmados pelo Bispo de Coimbra, D Fr. João Soares. A participação conjunta de toda a população de Coimbra nesse preito permanente prestado à sua Padroeira estava aí bem expressa pelo facto de um dos mordomos da respectiva Mesa ser um homem honrado da Cidade, sendo o outro obrigatoriamente um Estudante. Assim se compreende que, com o tempo, a Rainha D. Isabel fosse oficialmente considerada como padroeira de toda a Nação Portuguesa, da Dioceses de Coimbra e Leiria e de algumas das nossas mais prestigiosas instituições, como a Universidade e a Academia das Ciências, ou como a Misericórdia de Alvor, multiplicando-se a erecção de confrarias que a tomaram por Padroeira, algumas da quais ainda se mantêm vivas, como a de Soure ou, fora de Portugal, no Brasil e na Califórnia.

Mercê dos esforços da diplomacia portuguesa e, depois em 1580, também da espanhola, o Papa Urbano VIII decreta finalmente a canonização, em cerimónia solene ocorrida em Roma, a 25 de Maio de 1625. A notícia é recebida em Coimbra com grandiosas manifestações públicas e privadas, promovidas pelo Bispo D. João Manuel, pelo Cabido, pelas Ordens religiosas, numa entusiástica demonstração de vitalidade da devoção que todos consagravam à nova Santa, como bem se patenteia na Relação que dessas festas se publicou em Coimbra, logo no ano seguinte. Além deste volume merece referência especial a intervenção da Universidade, como se pode ver pelo volume Sanctissimae Reginae Elisabethae Poeticum Certamen, publicado em 1626, por iniciativa do Reitor D. Francisco de Brito Meneses.

Entretanto a progressiva ruína do velho mosteiro, obrigando à construção de novo edifício de excepcionais dimensões e notável valor artístico no Monte da Esperança, vinha criar condições mais favoráveis à difusão e engrandecimento das manifestações desse culto, como se vê pelas descrições que até chegaram das cerimónias da trasladação, ocorrida a 29 de Outubro de 1677, ainda antes de concluídas as obras.

Numa singular simbiose entre a devoção popular e a participação convicta das instituições civis e universitárias de Coimbra, a Santa Rainha continuará bem presente na memória e no coração dos Portugueses e das gentes desta Região do País. E uma das manifestações mais expressivas dessa presença iria ser, sem dúvida, o “préstito de capelos” à igreja de Santa Clara, que se vinha realizando todos os anos a 21 de Outubro, em cumprimento da deliberação do claustro pleno da Universidade reunido em 21 de Março de 1626, deliberação confirmada quase um século depois, a 10 de Maio de 1716, passando no entanto o préstito para 3 de Julho, e devendo a Universidade assistir no dia seguinte à missa e demais celebrações da festa.

Por provisão de D. João V, datada de 6 de Junho de 1746 e dirigida ao Reitor D. Francisco da Anunciação, ordenava o Monarca que, na festa a que a Universidade assistia “em préstito”, o pregador fosse sempre um Lente de Teologia, escolhido pelo critério de antiguidade. Por carta de 30 de Junho de 1773, como que a significar que a solenidade dessa procissão se mantinha após a promulgação dos novos Estatutos [da Universidade], ordenava o Marquês de Pombal ao Reitor-Reformador D. Francisco de Lemos que ele continuasse a realizar-se.

D. João VI aprova e confirma o antigo costume do préstito, como se vê pela acta do claustro pleno realizado em 11 de Julho de 1823. Mas a guerra civil em breve iria causar natural perturbação no cumprimento da secular tradição. A partir, pelo menos, de 1866, era o Presidente da Câmara Municipal quem, directamente ou através do Reitor, convidava o corpo universitário a incorporar-se com as suas insígnias na procissão da cidade.

E importa não esquecer outros sinais muito expressivos dessa devoção, que consta quase sete séculos, sobretudo no que toca à difusão da sua iconografia, através das mais variadas formas, mas muito especialmente nos “registos” e nos painéis de azulejo colocados em tantas casas, assim transformadas em santuários familiares desse culto, que pressupunha fervorosos actos de oração pública e privada, documentados por textos como a Novena para a Festa da Augustíssima Rainha de Portugal Santa Isabel (Coimbra, 1762) ou as Preces e louvores dedicados à Rainha Santa (Coimbra, 1915). Culto esse que também se torna visível nas romagens, cumprimento de promessas, invocações e actos de veneração que, em multidões, o Povo de Coimbra, de dois em dois anos, quando a sua Imagem desce à cidade, numa espécie de visita de bênção e de paz, lhe dirige confiante e agradecido.

São estes dados da História, que encontrou na Evolução do culto de D. Isabel de Aragão, de António de Vasconcelos (Coimbra, 1894), a sua melhor e mais completa expressão, e da mera observação da realidade quotidiana, que nos permitem compreender a dimensão, a importância e o significado espiritual e social que continuam a fazer, nos nossos dias, do culto prestado à Rainha Santa um fenómeno vivo, de extraordinária riqueza humana que constitui, sem sombra de dúvida, uma das maiores expressões de religiosidade popular em toda a Europa.

Aníbal Pinto de Castro

 

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