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Culto

 

Milagres e lendas

A vida e milagres da Rainha Santa, que nos chegou em legenda datada do séc. XIV, refere-nos que o miraculoso envolveu, desde logo, alguns aspectos extraordinários da vida de D. Isabel. E deles ressaltam relações materno-filiais, humanas ou divinas, muito vincadas. Nasce a rainha envolta numa pele que a não deixava ver, e que a sua mãe guarda amorosamente, como um bom presságio; a sua filha Constança, depois de morta, dirige-se a ela, rogando-lhe o sufrágio da sua alma; a Virgem Maria aparece-lhe por ocasião da sua morte, aliviando-a no sofrimento; do seu corpo morto jorram líquidos e odores perfumados, sinais da santidade. 
Também os milagres ocorrem de imediato durante a sua vida, ainda que a rainha os quisesse ocultar. Cura pelas orações e pelo contacto das suas mãos uma monja de Chelas, uma mulher que tinha uma doença no pé, um gafo que fora espancado, a sua filha que esmorecia de dores, uma criança cega. Cura gratuitamente, quando as pessoas a vêm visitar, ou quando exerce as práticas cristãs, lavando os pés dos pobres na Quinta-feira Santa ou quando dá esmola na Sexta-feira da Quaresma, aliviando assim da doença os mais necessitados. Apenas num caso, quando a rainha ia de Coimbra para o Porto, uma mulher da Arrifana lhe veio ao caminho pedir a cura da sua filha cega, prova manifesta da difusão da sua aura de santa já em vida. A rainha curou a criança, impondo-lhe as mãos nos olhos. A mulher espalha alegremente o prodígio, todavia a rainha pede-lhe, caritativamente, o silêncio, dando roupa à mãe e à filha. Mas como se diz, as pessoas da casa da rainha sabiam.
E é justamente a partir da clientela religiosa ou laica da rainha que a sua fama de santidade, de pronto, se deve ter espalhado. As gentes do povo parecem ter de imediato aderido ao culto da Rainha Santa, dirigindo-se em preces e pedidos até ao mosteiro de Santa Clara, onde estava o seu corpo. Este mosteiro, em que se recolhiam damas da família real e da mais alta aristocracia, tê-lo-á, então, desde logo, fomentado, mais crescendo espiritual e temporalmente com a devoção à sua padroeira. Obnubilando mesmo a projecção do antiquíssimo mosteiro crúzio. Como resposta, a partir do século XV, terá havido uma revitalização do culto dos Santos Mártires de Marrocos, impulsionada pelo prior D. Gonçalo. E na Coimbra Quatrocentista, Santa Cruz e Santa Clara rivalizariam ou ombreariam na atracção dos crentes, controlando já institucionalmente o culto dos seus santos. Para o que foi necessário registar a sua vida e acreditar os seus milagres. 
Milagres que são, no seu relato, um documento palpitante de vida. A relação do crente com os santos é complexa, tecida de sentimentos contrários, que oscilam entre o temor e o respeito e a fé, a esperança, a confiança e até familiaridade. Decalcada numa vivência humana do quotidiano, essencialmente contratual e mutualista, assume-se também ela como uma relação de troca, de dom e contra-dom. O que precisa invoca, pede, promete. O santo dá e recebe. O que, no limite, leva a um certo mercadejar com os santos. 
Escassos foram os homens que privaram com os santos em vida e deles receberam milagres por palavras, gestos ou contactos. Mais duradoura e abrangentemente o poder taumatúrgico dos santos manifestou-se pelas suas relíquias, guardadas num lugar sagrado.
Então o crente invoca o santo, quase à semelhança de uma encantação, e roga-lhe o favor. Para logo formular a promessa. Materializada, vulgarmente, na peregrinação e oferendas. Voto e promessa que são enunciados pelo próprio ou por outrem em seu nome.
Ainda antes de realizado o milagre se podem levar até ao santuário certas oferendas, mormente de cera. Era um rito de substituição, em quer o fiel, assim materializado pela cera, ficava em contacto mais próximo com as relíquias, considerando-se prometido ao santo e, portanto, mais apto para alcançar a cura. Mas, no geral, as oferendas e os ex-votos eram em testemunho do milagre. Realizado este, e como preito de reconhecimento, depunham-se nos mosteiros ou igrejas, onde se guardavam as relíquias, oferendas simbólicas, como a cera e lâmpadas de azeite, ex-votos figurando a parte do corpo curada, objectos que haviam resultado do milagre ou oferendas compensatórias em géneros ou dinheiro. 
A devoção à Rainha Santa Isabel ´+e muito marcada pela religiosidade feminina. Desde logo, dos 16 milagres realizados após a morte da santa, numa das versões dos mesmos, 10 deles operam-se em mulheres. No conjunto dos agraciados há um peso considerável de donas de Santa Clara e servidoras da rainha, para além de um monge, um clérigo, um mestre da Ordem de Cristo, um cidadão de Coimbra, entre outros não identificados, O raio de influência deste culto estendia-se até bem longe, pois há miraculados em Évora, Santarém, Alcobaça, Leiria, Condeixa, Taveiro, Lamego, além de, obviamente, Coimbra. As dores dos fiéis eram várias doenças da boca, inchaços na mão, cegueira, dores nos ossos, as hemorragias devido a sanguessugas, mas também deparamos com situações de outra natureza, como expulsão dos demónios, a libertação de um preso, ou a visita de um filho a sua mãe.
Para se obter o milagre vem-se até junto da sepultura da Rainha, beija-se o seu ataúde ou simplesmente se lhe pede, às vezes tão-só pelo gesto suplicante de erguer as mãos ao céu. O poder taumatúrgico da Santa exercia-se assim nas proximidades do seu túmulo, mas também através de relíquias de substituição, como o pano que havia servido para ligar o braço doente da rainha por ocasião da sua morte, ou ainda, pelo sono e o sonho curativos, ocorridos na própria igreja, logo bem semelháveis aos ritos de incubação da Antiguidade, como os que tinham lugar no templo de Esculápio. Significativamente, uma monja oferece-se à rainha com um ex-voto constituído por uma mão de cera. Por intermédio desta dedicação, e pela presença contínua substitutiva, a mão da religiosa ficou curada em 20 dias.
As mulheres teriam uma particular crença na Rainha Santa, também ela uma mulher. Assim o relato da sua vida apresenta-se como o modelo a seguir, sobretudo pelas damas ricas da aristocracia. Modelo de religiosidade muito humano e acessível, onde o carisma real não se reforça com um excessivo maravilhoso, antes se evidencia pelo contraste das suas virtudes de pobreza, humildade e caridade. Modelo de santidade laico e feminino, onde uma mulher se apresenta na perfeição, em todas as fases da sua vidam numa exemplaridade ética, da infância até ao matrimónio e viuvez.
Em vida, D. Isabel esteve rodeada de mulheres – as donzelas do seu séquito e as que protegeu, as fundadoras de mosteiros que apoiou, as pobres que socorreu, por fim as monjas de Santa Clara com que privou. Não admira pois que 60% dos seus milagres póstumos e 80% dos que ocorreram em vida se tenham operado em mulheres, que são ainda por vezes indutoras de alguns outros. O conjunto das beneficiárias, com um grande número de religiosas e clientes da realeza, indicia-nos uma devoção à rainha essencialmente ligada ao mundo urbano. E de um círculo mais restrito de donas se terá vulgarizado este culto entre as mulheres do povo. Para desde então até aos nossos dias a devoção à Rainha Santa Isabel atravessar todos os crentes num amplíssimo e vivo movimento de fé e culto nacional. 

Maria Helena da Cruz Coelho

 

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