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Mesa da Confraria

Constituição dos corpos gerentes da Confraria

A Confraria da Rainha Santa Isabel é actualmente dirigida pelos seguintes corpos gerentes eleitos a 18 de fevereiro de 2019:

Mesa de Assembleia Geral

  • Presidente: Henrique Vilaça Ramos
  • Vice-Presidente: João Rodrigues Teixeira
  • 1º Secretário: Carlota Maria Lopes de Miranda Urbano
  • 2º Secretário: Pedro Manuel de Matos Sequeira Alcoforado

Mesa Administrativa

  • Presidente: Joaquim Leandro Monteiro Costa e Nora
  • Vice-Presidente: José Manuel Sousa Vieira
  • Secretário: João Carlos Torres França
  • Tesoureiro: José António Neves Oliveira
  • Vogais:
    • Ricardo António Vieira da Veiga Ferrão
    • Manuela Carvalhão Mendes de Teixeira Santos
    • Euclides Maria Camarinho

Conselho Fiscal

  • Presidente: José Manuel Moreira Cardoso da Costa
  • Vogais:

    • Joel Gonçalves Araújo
    • Francisco Manuel Relva Pereira

Resposta ao comunicado do Secretariado Diocesano das Comunicações Sociais de Coimbra 13.07.2010

Em resposta ao comunicado do Secretariado Diocesano das Comunicações Sociais de Coimbra (SDCSC), datado de 13 de Julho de 2010, a Confraria da Rainha Santa Isabel (CRSI) estranha, em primeiro lugar, que a CRSI nunca tenha sido ouvida, em qualquer fase do processo, sobre o assunto em causa, que, como procuraremos demonstrar, não passa de uma falsa questão. É que a qualquer órgão de comunicação social e a qualquer entidade ou instituição de natureza reguladora ou judicante que se preze convirá sempre, antes de emitir qualquer juízo valorativo, ouvir ambas as partes, de forma a apurar a veracidade dos factos.


A bem da equidade da justiça, o réu nunca poderá deixar de ser ouvido, sobretudo quando o jornalista queixoso, em todo este processo – o senhor Miguel Cotrim –, é membro do SDCSC, sob pena de se considerar, de forma objectiva, que os dados estão, à partida, viciados e que o juiz o é em causa própria.

Posto isto, em relação aos factos de que a CRSI foi recriminada, a Confraria tem a dizer que dificuldades impostas pela habitual limitação dos espaços na Igreja da Rainha Santa Isabel e áreas adjacentes, que, embora amplos, se tornam pequenos e acanhados em dias de festa, a par de situações desagradáveis, designadamente atropelos e abusos cometidos em outros anos por fotógrafos menos cônscios da solenidade dos actos em que intervêm, obrigaram a CRSI a restringir o acesso aos fotógrafos. Apenas foi imposto limite ao número de fotógrafos comerciais, embora se saiba que há fotógrafos ditos da comunicação social que se aproveitam desse estatuto para usufruírem de posições privilegiadas em benefício comercial próprio.

Os fotógrafos da comunicação social teriam livre acesso, desde que se comprometessem antecipadamente a respeitar um determinado número de regras estabelecidas pela mesa da Confraria. A generalidade destas regras, inspiradas no que está vigente em muitas igrejas nacionais e estrangeiras, bem como em regras do Senado dos EUA e de Câmaras Parlamentares de alguns dos países mais democráticos, tem sobretudo em vista um maior respeito pelos actos de culto e pelos seus intervenientes passivos e activos, objectivo que devia merecer a preocupação primordial de todos os católicos e a compreensão e respeito por parte de todos os jornalistas, sobretudo os de órgãos da comunicação social dita cristã, bem como de todas as instituições católicas, como é o caso do SDCSC. Qualquer membro da Igreja Católica terá todo o interesse em que as cerimónias religiosas decorram no maior respeito pelo Sagrado, sobretudo quando se trata de jornalistas pouco frequentadores de actos litúrgicos, pois foi sobretudo em função desses que as referidas regras foram instituídas.

Os escuteiros tinham instruções para vedar o acesso a quem não estivesse credenciado a fim de se evitarem, como já foi referido, os abusos cometidos em anos anteriores, em que a organização se viu obrigada a proibir o trabalho de todos os fotógrafos – tanto os profissionais, como os repórteres fotográficos da comunicação social – devido aos atropelos de um único deles – por sinal, fotógrafo da comunicação social. Eis a justificação destas medidas excepcionais. Situações lamentáveis em que pagaram os justos pelo pecador. Para evitar essas situações de injustiça relativa, exigimos também credenciação prévia por parte dos órgãos de comunicação social. Aliás, essa exigência já era publicamente conhecida há vários meses, como se pode ler numa notícia publicada na página Web da “amicor.pt” no dia 27 de Abril com o título “Jornalistas que cobrirem a procissão da Rainha Santa vão ter que se credenciarem (sic)”, onde se informa justamente que a mesa da CRSI exigia a credenciação de “todos os profissionais de Comunicação Social e fotógrafos profissionais”, embora o que estivesse em causa não fosse a procissão, como a notícia refere, mas sim a parte das festas que decorre nos espaços privados da Confraria. A publicação desta notícia vem desmentir a acusação de desconhecimento ou de falta de divulgação dessa exigência.

Qualquer pessoa ou instituição é livre de elaborar as normas que vigoram nos seus espaços privados. São os outros que se devem acomodar a essas normas. Cada um é livre de as acatar ou não, mas assume depois as consequências desses actos.

Tendo as festas da Rainha Santa Isabel características nacionais já desde o séc. XIX – para não falarmos no culto, cuja importância nacional recua ao tempo de D. João III – não pode a Confraria da Rainha Santa Isabel prever quem está interessado em fazer a cobertura das cerimónias nas festas da Rainha Santa. Estranha o SDCSC a “ausência de dialogo prévio à elaboração normas”. Mas diálogo com quem? Não podíamos convocar todos os fotógrafos nem todos os órgãos de comunicação social do País, para não falar dos estrangeiros, que também estiveram presentes e nos solicitaram credenciais. Devem ser, pois, os profissionais da comunicação social a comunicar com a Confraria, solicitando as normas de conduta. O exemplo do Santuário de Fátima invocado pelo SDCSC só nos dá razão, pois, quem consultar as páginas web do mesmo, verificará que, nos diversos eventos, o Santuário solicita constantemente “aos órgãos de comunicação social que procedam antecipadamente à inscrição para acreditação junto da Sala de Imprensa do Santuário de Fátima”. No que diz respeito à forma de vestir, se um ou uma jornalista ou fotógrafo se apresentar em Fátima (como em Roma, como em muitos outros santuários) com “roupas demasiado justas ou demasiado exuberantes, saias curtas, decotes, transparências, calções…” será certamente convidado a abandonar o recinto.

Foram muitos os jornalistas da imprensa escrita, rádio e televisão (RTP, Agência Ecclesia, Diário As Beiras, etc.), bem como os repórteres fotográficos a cobrir as festas da Rainha Santa, provenientes de todo o País e do estrangeiro. Emitimos cerca de uma dúzia de credenciais. Foram eles próprios que nos contactaram solicitando-nos as condições, que subscreveram de imediato. Vários fotógrafos profissionais e outros ao serviço dos nossos parceiros na organização das festas – Turismo de Coimbra e Turismo do Centro – solicitaram a devida autorização. A ninguém as recusámos quando solicitadas, desde que se comprometessem a respeitar as regras impostas, e todos eles se puderam movimentar nos espaços da CRSI e na procissão sem quaisquer constrangimentos.

Mesmo no caso daqueles que afirmam que lhes foi vedado o acesso, como é o do jornalista Miguel Cotrim, pelo que pudemos apurar, as reportagens saíram nos respectivos jornais ou páginas da internet, sinal de que não foram colocados “entraves” ao trabalho dos jornalistas. Aliás, o jornalista em causa fez sinal, junto à grade do presbitério, ao Vice-Presidente da Mesa da Confraria, solicitando permissão para fotografar. Embora não tivesse solicitado credenciais, o Vice-Presidente percebeu a situação e logo respondeu afirmativamente, autorizando-o a captar imagens. Ignoramos o que se terá passado posteriormente, mas, se o jornalista diz ter sido impedido por uma escuteira, poderia ter invocado a autorização da Mesa da Confraria.

Por outro lado, se a escuteira lhe respondeu que “a diocese não tinha qualquer autoridade naquele sítio, mas sim, a confraria”, tê-lo-á feito abusivamente. Se o jornalista tivesse confrontado a Mesa com essa afirmação – e não deixamos de estranhar os ataques sucessivos, alguns deles, além de absurdos, impróprios e censuráveis, de que a Confraria tem sido alvo sem que a mesma tenha tido direito ao habitual contraditório, como se impõe na deontologia jornalística – ter-lhe-íamos respondido que a Confraria é uma instituição da Igreja e que, ainda que possua também estatuto civil, se considera inteiramente submissa à autoridade máxima da Igreja em que está integrada, o Bispo de Coimbra, e que nunca deixará de defender os interesses da Igreja, privilegiando sempre, como se impõe, os meios de comunicação social da Igreja, pois são eles os que mais se identificarão e maior compreensão poderão demonstrar pelas regras que a CRSI estabeleceu.

Considerámos o episódio um lamentável mal-entendido e manifestámos ao jornalista o desejo de que esse equívoco não prejudicasse as boas relações que a Mesa da Confraria pretendemos promover com os meios de comunicação social, sempre num clima de respeito mútuo, solicitando-lhe que desse igual relevância na página da internet ou no Correio de Coimbra, no pleno respeito pela regra básica do contraditório, o que, infelizmente, até agora não aconteceu.

Nunca em anos anteriores as festas da Rainha Santa Isabel e as iniciativas implementadas pela Mesa da CRSI tiveram tanta repercussão nos média como este ano, sinal de que, por um lado, houve um trabalho de grande sintonia e de colaboração com os nossos parceiros na organização das festas e que, por outro, houve um grande esforço por parte dos diversos membros da Mesa da Confraria em cooperar com a comunicação social e em acudir a todas as solicitações que nos foram endereçadas (RTP, Ecclesia, Lusa, Rádio Renascença, TSF, Antena 1, RDP Centro, Rádio Universidade de Coimbra, além de muitos outros média da imprensa escrita e digital).

Quanto às regras estabelecidas, o balanço que a Mesa da CRSI fez, em reunião recente, é positivo, pois, além de terem funcionado bem, pudemos assistir a uma maior preocupação dos jornalistas com as cerimónias, procurando passar despercebidos, sem incomodar, nem distrair (nem pôr em perigo) os participantes, nem o património da Confraria, e sobretudo revelando maior respeito pelo Sagrado.

Quanto às críticas de que a Confraria da Rainha Santa Isabel tem sido alvo, sobretudo no Correio de Coimbra e no site da amicor.pt, resta-nos aduzir aqui as palavras do Doutor António Garcia Ribeiro de Vasconcelos, quando exerceu o cargo de Presidente da Mesa pela primeira vez há bem mais de um século: “a nossa gerência tem sido alvo de criticas adversas e apaixonadas, por parte de quem maior obrigação tinha de nos auxiliar com a sua auctoridade e conselho […]. Seria isso mil vezes preferível e mais salutar do que fazer propaganda de noticias e apreciações inexactas, contra quem só tinha o peccado de trabalhar com enthusiasmo por uma causa sympathica e útil, e de procurar bem cumprir os deveres de cargo que não solicitara”.

Para concluir, não podemos deixar de lamentar o facto de o nosso direito de resposta não ter sido, até agora, respeitado. Na comunicação social de um estado democrático, o direito ao contraditório é uma regra basilar, se houver boa fé por parte dos jornalistas, tal como o é, na justiça de um estado de direito, a defesa do réu perante qualquer acusação.

Foram feitas (e têm sido feitas) acusações graves sem que à visada (a CRSI) fosse dada a possibilidade de se defender, ou, pelo menos, de expor a sua versão dos factos, tal como prescrevem as boas regras jornalísticas emanadas do respectivo código deontológico. O jornalista da amicor.pt e do Correio de Coimbra recusou-se sempre a fazê-lo, apesar de a isso instado. Da mesma forma lamentamos que o Secretariado Diocesano das Comunicações Sociais de Coimbra não tenha dado à entidade criticada a possibilidade de apresentar o seu ponto de vista antes de emitir o seu comunicado.

Resta-nos solicitar ao SDCSC que exorte a amicor.pt e ao Correio de Coimbra a publicar este esclarecimento, não só ao abrigo do direito de resposta, tão-pouco para reparar o bom nome de todos quantos, de forma generosa e abnegada, em genuíno espírito de missão e de serviço à Igreja de Cristo, trabalham em prol da glorificação de Deus e dos Seus Santos, mas sobretudo em nome de um bom clima de cooperação e de harmonia entre a Confraria e os média cristãos.

Não obstante este(s) incidente(s), a Mesa da Confraria da Rainha Santa Isabel não deixará de continuar a acolher, nos seus espaços, todos os média com a mesma cordialidade de sempre, como se impõe a um organismo cristão, e reitera a esperança de estes factos não prejudicarem as boas relações que a Mesa pretende continuar a promover com os meios de comunicação social, sempre num clima de respeito mútuo.

Aprovado em sessão de Mesa de 27 de Julho de 2010

A Mesa da Confraria da Rainha Santa Isabel

Benfeitores

Nesta secção iremos disponibilizar informação acerca das instituições e pessoas individuais que, pela sua generosidade, se destacaram na ajuda às actividades directa ou indirectamente relacionadas com o culto à Rainha Santa Isabel.

São várias as campanhas em curso com que os interessados poderão colaborar, como, por exemplo, o financiamento da iluminação da igreja, os trabalhos de restauro da igreja e do coro alto, os trabalhos de isolamento dos claustros. Se estiver interessado ou conhecer alguma instituição ou empresa interessada em nos ajudar a atingir estes objectivos, é favor contactar-nos.

Tesouro da Rainha Santa Isabel

O culto das imagens e das relíquias ocupou, permanentemente, um lugar preponderante no quadro institucional da Igreja, visto que a percepção do divino se configurou, desde sempre, como uma das questões magnas do Cristianismo. Nos séculos finais da Idade Média, os laicos, ao implicarem-se de forma mais personalizada na vida espiritual, recorreram, frequentemente, a imagens e relíquias, contribuindo para a sua proliferação e trazendo o seu culto para a devoção privada.

O conjunto de peças de ourivesaria, conhecido com a designação de â??tesouro da Rainha Santaâ?, que integra hoje a colecção do Museu Nacional de Machado de Castro, é a prova material da relevância que imagens e relíquias detiveram na sua forma particular de exercer o culto.

Em tempos góticos, a ausência do corpo de Cristo, que foi para o Céu, converteu os objectos ligados à sua paixão, essencialmente a sua Cruz, nos símbolos mais marcantes do Cristianismo. Por essa razão, o relicário do Santo Lenho, em coral e prata, com uma inscrição que alude ao Mistério da Santíssima Trindade, deve ter ocupado um lugar de preponderância no conjunto dos objectos devocionais de Isabel de Aragão. Os dois pequenos fragmentos do Santo Lenho, colocados em forma de cruz, encontram-se inseridos no relicário propriamente dito, de forma circular, que é suportado por um ramo de coral. O exotismo das formas agitadas e curvilíneas desta â??árvore das águasâ? enquadra-se bem nas formas angulosas do gótico. O coral, de intenso colorido, é sustentado, de forma engenhosa, por dois encaixes prismáticos de prata, decorados com as armas portuguesas, assentes numa base em cruz aspada, apoiada em dois elegantes e expressivos leões de prata. No cruzamento da cruz, inseridas num círculo esmaltado, podem ver-se as armas de Aragão.

Um lugar de não menor relevo, deve ter ocupado, no conjunto dos objectos pertencentes à Rainha Santa, a imagem-relicário da Virgem com o Menino. Trata-se de uma imagem de vulto redondo de Nossa Senhora com o Menino ao colo, de 86 cm de altura, em prata branca e dourada, burilada e esmaltada, assente em leões. A mão direita do Menino estende-se em direcção ao local onde, no peito da imagem de Nossa Senhora, se encontram guardadas as relíquias. Esta imagem-relicário constitui uma peça da maior importância não só pela sua raridade enquanto objecto de ourivesaria, mas também pela possibilidade que dá de podermos aferir o valor atribuído à Virgem Maria pela devoção privada, no século de Trezentos. A pertença desta peça a Isabel de Aragão está atestada pela decoração heráldica do cinto da imagem, onde se podem ver, alternadamente, as armas de Portugal e de Aragão, em esmalte. Faz ainda parte deste tesouro uma Cruz processional, em prata branca e dourada, com braços em jaspe sanguíneo. No encontro dos braços, num nó quadrangular em prata repuxada está representado, de um lado, Deus Pai acompanhado do Tetramorfo, e do outro o Calvário. No pé da cruz, em botões losangonais dispõem-se, em alternância, as armas de Portugal e Aragão.

No tesouro desta rainha não se encontram só, como seria de esperar, os objectos devocionais, pois apesar da sua humildade, terá apreciado, tal como os da sua estirpe, as peças de adorno. � prova disso o colar de ouro e pedrarias, que foi pertença sua, e que completa as peças que se conservam do seu tesouro. Esta jóia, por ter sido se uso pessoal da Rainha Santa, não terá sido vista só como simples matéria, tendo-lhe sido lendariamente associado um carácter propiciatório e profilático e pedido às freiras de Santa Clara, continuadamente, o seu empréstimo, de modo a obter, por sua intercessão, favores divinos.

Não fazendo parte do designado â??tesouro da Rainha Santaâ?, mas integrando as peças de seu inestimável legado, conta-se o bordão, de jaspe e prata, encontrado, no século XVII, sobre o ataúde onde se guardavam os seus restos mortais. Oferecido pelo arcebispo de Compostela à rainha Isabel, aquando da sua peregrinação a Santiago, o bordão em forma de Tau, tal como o do Apóstolo na representação escultórica do Pórtico da Glória da catedral de Compostela, é hoje pertença da Confraria da Rainha Santa Isabel. Apresenta uma singular empunhadura, em jaspe vermelho sanguíneo, rematada por duas cabeças de leão, em prata, que se encontra fixada à vara por dois triângulos de prata, decorados com trifólios recortados e vazados. Na, com alma de madeira revestida de prata, encontram-se gravadas as tradicionais vieiras, em prata dourada. Transformado, logo após trer sido descoberto, numa verdadeira relíquia, o bordão encontra-se guardado num estojo de prata, mandado fazer, nos inícios do século XVII, por D. Catarina de Noronha, abadessa do mosteiro de Santa Clara de Coimbra. O invólucro que encerra esta preciosa peça tem a forma de custódia de balaústre, com a parte superior composta por um ostensório oval, que permite ver a empunhadura.

As peças do â??tesouro da Rainha Santa Isabelâ?, conjuntamente com o bordão de peregrina, representam a mudança estética que fez triunfar o gótico na ourivesaria, entre nós, e revelam-se fundamentais para o conhecimento da personalidade de Isabel de Aragão, bem como para a compreensão de formas de religiosidade privada, adoptadas por laicos abastados, no decurso dos séculos finais da Idade Média.

Francisco Pato de Macedo

A Cultura

A imortalidade da Rainha Santa está na recordação das suas virtudes mas está, igualmente, na lembrança da sua cultura, e dos seus vastos conhecimentos que, afinal, fazem jus à sua santidade, porque “a sabedoria não entrará numa alma maligna”.

No Reino de Portugal, nos fins do século XIII, podemos observar três centros principais de produção e difusão de cultura: as instituições religiosas (mosteiros, conventos, colegiadas e sés), a Universidade e a corte régia. Sob a marca, já predominante, do galaico-português, escrito e falado, D. Isabel contactou em Coimbra, e um pouco por quase todo o Reino, com mestres, bacharéis e doutores, bispos, cónegos e frades, arquitectos e físicos, homens, religiosos ou não, mas todos muito cultos. Recebeu ou expediu um número considerável de documentos como bulas, breves, cartas-missivas, doações, testamentos e outros actos escritos. Possuía uma chancelaria de que conhecemos um chanceler, Estêvão Dade, um escrivão, Domingos Martins e os selos, pendentes e de chapa, que usou para autenticar alguns dos seus documentos. Ainda que desconheçamos o grau da sua cultura gráfica, pois dela não chegou até nós qualquer testemunho, pode afirmar-se, como quase certo, que sabia escrever.

Na verdade, o meio cultural e religioso em que vivia era um forte estímulo para desenvolver as suas aptidões culturais e intelectuais. Desde logo, Dona Vataça, sua dama, e prima afastada, era mulher culta, de alta estirpe, possuidora de livros, escrivão e selo.

Contudo, seria D. Dinis a sua principal referência no campo das letras. Era poeta, trovador, fundara o Estudo Geral, estabelecera o galego-português como língua oficial do Reino e assinava com a própria mão as cartas que outorgava. Na verdade, D. Isabel, ainda muito jovem, acompanhou não só o processo de criação da Universidade a que seu marido ficará, para sempre, ligado como outor da “carta fundacional” de 1 de Março de 1290, mas também observou, ouviu, e até inspirou, o género poético musical característico da época, das cortes peninsulares, a canção trovadoresca. Com efeito, pela corte régia passaram muitos jograis e trovadores como Fernão Rodrigues Redondo, Estêvão Fernandes Barreto, Fernão Figueira de Lemos e tantos outros que faziam escutar as suas cantigas de amigo, de amor, ou de escárnio e mal-dizer.

Além disso, na cidade e termo de Coimbra tinham sede alguns dos mais notáveis centros de irradiação e circulação das culturas portuguesa e europeia, tais como os mosteiros de Santa Cruz, de Lorvão e a Sé Catedral. Nesse ambiente, é muito provável que tenha conhecido, pelos livros, nomes grandes, seus contemporâneos, como Roger Bacon, Dante, Petrarca, Marco Polo, entre outros. E ainda que não tenhamos qualquer notícia da sua biblioteca, é de admitir que tivesse possuído e até lido as vidas e obras de Santo Agostinho, de S. Bernardo, de D. Telo e S. Teotónio, de Santo António e até de Pedro Hispano, o Papa português, João XXI, que morreu tinha D. Isabel apenas sete anos de idade.

Não admira, pois, que o seu principal biógrafo, autor anónimo da Lenda ou Legenda da Rainha Santa, a descreva como uma mulher culta nas áreas mais diversas do saber. Conta que ela sabia além da língua materna, latim e linguagem (galego-português). Dos seus conhecimentos litúrgicos, bíblicos e musicais, ninguém ousará duvidar tal era a sua piedade, devoção e prática da lectio divina.

Não se pode duvidar, também, de que sabia de enfermagem, medicina e até, como diríamos hoje, de nutricionismo, como fica provado pela ementa que descreve para os homens e mulheres do hospital de Coimbra, que criou, nesta cidade, por carta passada a 12 de Março de 1328. São-lhe ainda atribuídos conhecimentos de engenharia e arquitectura revelados no acompanhamento da construção das casas do mosteiro de Santa Clara e até do seu túmulo.D. Isabel, Rainha de Portugal, mulher e Santa, culta, inteligente, diplomata, de personalidade forte, destemida, atributos que D. Dinis, em forma poesia, louvou assim:

«Pois que Deus vos fez, Senhora

Fazer do bem sempre o melhor

E dele ser tão sabedora

Em verdade vos direi:

Assim me valha o Senhor!

Érades boa para Rei!

E pois sabedes entender

Sempre o melhor e bem escolher,

Verdade vos quero dizer,

– Senhora que sirvo e servirei:

– Pois Deus assim o quis fazer,

Érades boa para Rei!»

Maria José Azevedo Santos

Túmulo de prata da Rainha Santa Isabel.

Túmulo de prata da Rainha Santa

Túmulo de prata da Rainha Santa Isabel.Após a abertura do túmulo de pedra de D. Isabel de Aragão, em 26 de Março de 1612 e do sequente exame das relíquias, determinou o bispo D. Afonso de Castelo Branco expor à veneração dos fiéis o corpo incorrupto da Rainha Santa. Para o efeito, obteve licença do Papa Paulo V, mandou edificar um arco no coro alto do mosteiro velho e lavrar um túmulo de prata branca e cristal, para onde se faria a trasladação dos venerandos restos mortais.

Tudo leva a crer que teriam sido os ourives de Lisboa, Domingos Vieira e Miguel Vieira os artistas deste novo túmulo, que já estaria pronto em 1614, ano em que os mesmos ourives se encarregaram de executar as gardes da prata que o deviam resguardar. Mas, mercê de vicissitudes várias, a trasladação só se veio a realizar em 1677, aquando da mudança da comunidade para o mosteiro novo. O magnífico conjunto de talha dourada da nova igreja incluiu o retábulo-mor, no chamado estilo nacional, feito em 1693 por Domingos Lopes, com a colaboração de Manuel Moreira. Nele se dispôs uma câmara de caixotões dourados, destinada a receber o túmulo de prata, que foi para aí trasladado no dia 3 de Julho de 1696.

A arca tumular de prata é de austera volumetria: de forma paralelepipédica, coberta por uma tampa em tronco de pirâmide, de planta rectangular alongada. A dureza das linhas direitas quebra-se, no entanto, pela aplicação de colunas, jarras de movimentados perfis e cristais, aplicados em vãos de diversas formas e dimensões. Todos estes elementos se ordenam, em sintonia com as regras dos tratados de arquitectura: as colunas coríntias, de harmoniosas proporções e terço inferior demarcado, dispõem-se emparelhadas e sustentam um verdadeiro entablamento, que as acompanha de forma rítmica, em avanços e recuos. A tampa tem cinco faces, sendo as lâminas gravadas e rasgadas de variadas aberturas, com cristais.

É uma obra que se insere no classicismo do século XVII, decorada com múltiplos ornamentos de gosto maneirista, em que se salientam os grotescos, entrelaçados em liso sobre fundo pontilhado a punção, e as máscaras, vasos de flores e meninos, mais claramente flamengos, que se distribuem pela tampa, sendo merecedores de especial atenção os capitéis, de folhinhas de acanto finamente cinzeladas e repuxadas.

Nelson Correia Borges

Túmulo de pedra da Rainha Santa

A vontade de deixar preservada para a posteridade a sua memória, levou a rainha Isabel de Aragão a promover o seu próprio túmulo, que destinou à igreja do mosteiro de Santa Clara de Coimbra. Por altura da sagração desta igreja, ocorrida a 8 de Julho de 1330, já se encontrava concluído o seu monumental ataúde, que se conservou vazio por mais seis anos. A escultura tumular assistiu, entre nós, com a realização deste túmulo à introdução de modificações morfológicas e plásticas que, em seguida, se difundiram originando um tipo de arcas fúnebres de grandes dimensões, paralelepipédicas, autónomas das paredes e, por isso, decoradas em todas as faces, que viriam a ser produzidas, no decurso desse século de Trezentos, em quantidade elevada.

A tipologia do sepulcro, mas, fundamentalmente, a sua decoração manifestam-se significativas relativamente ao defunto, à sociedade em que viveu e se inseriu e à sua posição na hierarquia do poder. A diferença do túmulo da rainha Santa relativamente ao que aqui se produzia e a sua qualidade plástica, podem explicar-se pela atribuição da sua autoria a mestre Pêro, um escultor de provável origem peninsular, talvez de Aragão como a rainha, que teve uma oficina activa, já individualizada, a trabalhar, ao tempo, na região de Coimbra. A contratação deste artista deve ter sido plausivelmente obra da rainha, personalidade de superior cultura e que sempre manteve contactos com a terra da sua naturalidade. Se não podemos afirmar, com absoluta segurança, a iniciativa desta contratação, não nos parece restarem dúvidas quanto à intervenção da soberana na personalização do seu túmulo que, pela sua característica de sarcófago isento, se impôs no interior do edifício religioso, concorreu para continuar a manter a defunta presente entre os vivos e invocar, à comunidade religiosa, a solidariedade dos sufrágios.

A iconografia do sarcófago revela uma singularidade, particularmente expressiva, na forma de representação da estátua jacente que radica, com toda a probabilidade, na participação da tumulada. Podemos considerar esta figuração plástica como a primeira representação iconográfica de Santa Isabel, se pensarmos na importância que o poder taumaturgo e intercessor atribuído aos Santos conferiu a este túmulo, convertendo-o em palco de milagres.

A opção de vestir o hábito mendicante, sem abraçar a Regra, e nele se fazer tumular, tornou-se um costume, frequente entre os estratos nobilitados, e exprime um claro investimento de procurara a obtenção da salvação, através de um acto material. A rainha Isabel, que também vestiu o hábito de Clarissa, após a morte do marido, fez-se representar com ele no seu jacente, com as mãos cruzadas sobre o peito, estendendo-se a direita sobre o livro das orações. Presa à cintura, uma bolsa, recheada de moedas e decorada com a vieira e a cruz simbólicas de Santiago, exprime uma clara referência às peregrinações que realizou ao túmulo do Apóstolo. A condição de peregrina, que quis celebrar no jacente, completa-se com o bordão, que segura com o braço direito, à maneira de um báculo, e se dispõe sobre as vestes, paralelamente ao cordão nodoso de clarissa.

A sua preocupação com a morte, que preparou através de uma vida cristã, recheada de orações, de obras de caridade e penitências, evidencia-se na temática escatológica, que constitui o tema fulcral da decoração tumular, e está referenciada metafóricamente, no jacente, na condição de peregrina. Esta constitui a grande singularidade deste túmulo, pois embora o cristianismo medieval apontasse a peregrinação, aos que ansiavam salvar-se, como uma das mais perfeitas formas de ascese, não se conhecem mais exemplos de estátuas jacentes de peregrinos. Dentro do mesmo ideal de peregrinação, que pretendeu exaltar, se pode inserir a itinerância dos seus irmãos dilectos – os franciscanos – que fez representar num dos frontais do seu túmulo.

Às características de clarissa da terceira ordem e de peregrina, Isabel de Aragão juntou no seu jacente, as de rainha, visto que, apesar de envergar o hábito de ordem de pobreza, a que se acolheu nos últimos anos de vida, não renunciou aos símbolos do seu poder terreno e embora as vestes sejam de clarissa, a coroa é de rainha e os escudos régios de Aragão e Portugal, espalhados pelo túmulo não permitem esquecer a sua alta estirpe e a sua condição na hierarquia do poder.

Ao escolher imortalizar-se num jacente de peregrina, a rainha Santa teve, seguramente, em vista a simbólica da peregrinação no sentido religioso de sacrifício purificador da alma em vista da salvação. Não podemos, contudo, deixar de atribuir à peregrinação o sentido mais amplo de meio de afirmação política no estrangeiro e oportunidade de trocas culturais, pois foi nesta acepção que os utilizou aquela que foi uma das mais destacadas rainhas dos nossos tempos medievos, que o povo e a Igreja quiseram elevar aos altares.

Francisco Pato de Macedo

Culto

Falecera a Rainha D. Isabel em Estremoz, a 4 de Julho de 1336 e, no cumprimento das suas últimas vontades, logo se procedeu à trasladação do seu corpo para Coimbra, onde chegaria dias depois, sem mostrar qualquer sinal de decomposição, antes exalando, segundo a biografia com toda a probabilidade atribuída a D. Fr. Salvado Martins, que a lenda depois largamente confirmaria, um suavíssimo perfume. Tendo sempre presente a acção da Rainha no exercício da desvelada caridade que praticara em vida e profundamente impressionado pela incorruptibilidade do seu corpo, não tardou o povo a dar-lhe foros de santidade, fazendo do seu túmulo, na igreja do velho Mosteiro de Santa Clara, lugar de oração frequente e da sua memória via de intercessão para levar até junto de Deus as suas necessidades. Prova desse culto espontâneo, mas muito intenso, é o registo dos milagres que lhe iam sendo atribuídos e que pouco a pouco se juntaram à sua biografia. E é por demais significativo que a cerimónia nupcial do futuro Rei D. Duarte com Leonor de Aragão se tenha celebrado, a 22 de Setembro de 1428, na capela do coro velho da igreja de Santa Clara, junto do monumento que encerrava os seus despojos.

E foi a intensificação desse culto que levou o Rei D. Manuel I a solicitar à Santa Sé a sua beatificação, concedida pelo Papa Leão X, por breve de 15 de Abril de 1516, que, como se compreende, não só tornou oficial aquele culto espontâneo, como lhe deu novo incremento e mais disciplinada expressão, até pelo facto de tornar necessário, na diocese de Coimbra e na Capela Real, um ofício próprio, tanto na missa, como nas horas canónicas, cujo texto foi redigido por André de Resende. A participação oficial da Universidade de Coimbra nesse culto, vai trazer nova e mais alta expressão à veneração da Santa Rainha. Com efeito, D. João III, por cartas de 9 de Setembro de 1556, ordenava ao Reitor da Universidade, Doutor Afonso do Prado e ao Reitor do Colégio das Artes que em cada ano ambas as instituições participassem oficialmente nas celebrações que, no dia da sua festa litúrgica, se realizassem no Mosteiro em honra de Santa Isabel.

Cerca de 1560, por decisão da Abadessa D. Ana de Meneses, e com o patrocínio da Rainha D. Catarina, fundava-se uma Confraria sob a sua invocação, cujos estatutos foram logo aprovados e confirmados pelo Bispo de Coimbra, D Fr. João Soares. A participação conjunta de toda a população de Coimbra nesse preito permanente prestado à sua Padroeira estava aí bem expressa pelo facto de um dos mordomos da respectiva Mesa ser um homem honrado da Cidade, sendo o outro obrigatoriamente um Estudante. Assim se compreende que, com o tempo, a Rainha D. Isabel fosse oficialmente considerada como padroeira de toda a Nação Portuguesa, da Dioceses de Coimbra e Leiria e de algumas das nossas mais prestigiosas instituições, como a Universidade e a Academia das Ciências, ou como a Misericórdia de Alvor, multiplicando-se a erecção de confrarias que a tomaram por Padroeira, algumas da quais ainda se mantêm vivas, como a de Soure ou, fora de Portugal, no Brasil e na Califórnia.

Mercê dos esforços da diplomacia portuguesa e, depois em 1580, também da espanhola, o Papa Urbano VIII decreta finalmente a canonização, em cerimónia solene ocorrida em Roma, a 25 de Maio de 1625. A notícia é recebida em Coimbra com grandiosas manifestações públicas e privadas, promovidas pelo Bispo D. João Manuel, pelo Cabido, pelas Ordens religiosas, numa entusiástica demonstração de vitalidade da devoção que todos consagravam à nova Santa, como bem se patenteia na Relação que dessas festas se publicou em Coimbra, logo no ano seguinte. Além deste volume merece referência especial a intervenção da Universidade, como se pode ver pelo volume Sanctissimae Reginae Elisabethae Poeticum Certamen, publicado em 1626, por iniciativa do Reitor D. Francisco de Brito Meneses.

Entretanto a progressiva ruína do velho mosteiro, obrigando à construção de novo edifício de excepcionais dimensões e notável valor artístico no Monte da Esperança, vinha criar condições mais favoráveis à difusão e engrandecimento das manifestações desse culto, como se vê pelas descrições que até chegaram das cerimónias da trasladação, ocorrida a 29 de Outubro de 1677, ainda antes de concluídas as obras.

Numa singular simbiose entre a devoção popular e a participação convicta das instituições civis e universitárias de Coimbra, a Santa Rainha continuará bem presente na memória e no coração dos Portugueses e das gentes desta Região do País. E uma das manifestações mais expressivas dessa presença iria ser, sem dúvida, o â??préstito de capelosâ? à igreja de Santa Clara, que se vinha realizando todos os anos a 21 de Outubro, em cumprimento da deliberação do claustro pleno da Universidade reunido em 21 de Março de 1626, deliberação confirmada quase um século depois, a 10 de Maio de 1716, passando no entanto o préstito para 3 de Julho, e devendo a Universidade assistir no dia seguinte à missa e demais celebrações da festa.

Por provisão de D. João V, datada de 6 de Junho de 1746 e dirigida ao Reitor D. Francisco da Anunciação, ordenava o Monarca que, na festa a que a Universidade assistia â??em préstitoâ?, o pregador fosse sempre um Lente de Teologia, escolhido pelo critério de antiguidade. Por carta de 30 de Junho de 1773, como que a significar que a solenidade dessa procissão se mantinha após a promulgação dos novos Estatutos [da Universidade], ordenava o Marquês de Pombal ao Reitor-Reformador D. Francisco de Lemos que ele continuasse a realizar-se.

D. João VI aprova e confirma o antigo costume do préstito, como se vê pela acta do claustro pleno realizado em 11 de Julho de 1823. Mas a guerra civil em breve iria causar natural perturbação no cumprimento da secular tradição. A partir, pelo menos, de 1866, era o Presidente da Câmara Municipal quem, directamente ou através do Reitor, convidava o corpo universitário a incorporar-se com as suas insígnias na procissão da cidade.

E importa não esquecer outros sinais muito expressivos dessa devoção, que consta quase sete séculos, sobretudo no que toca à difusão da sua iconografia, através das mais variadas formas, mas muito especialmente nos â??registosâ? e nos painéis de azulejo colocados em tantas casas, assim transformadas em santuários familiares desse culto, que pressupunha fervorosos actos de oração pública e privada, documentados por textos como a Novena para a Festa da Augustíssima Rainha de Portugal Santa Isabel (Coimbra, 1762) ou as Preces e louvores dedicados à Rainha Santa (Coimbra, 1915). Culto esse que também se torna visível nas romagens, cumprimento de promessas, invocações e actos de veneração que, em multidões, o Povo de Coimbra, de dois em dois anos, quando a sua Imagem desce à cidade, numa espécie de visita de bênção e de paz, lhe dirige confiante e agradecido.

São estes dados da História, que encontrou na Evolução do culto de D. Isabel de Aragão, de António de Vasconcelos (Coimbra, 1894), a sua melhor e mais completa expressão, e da mera observação da realidade quotidiana, que nos permitem compreender a dimensão, a importância e o significado espiritual e social que continuam a fazer, nos nossos dias, do culto prestado à Rainha Santa um fenómeno vivo, de extraordinária riqueza humana que constitui, sem sombra de dúvida, uma das maiores expressões de religiosidade popular em toda a Europa.

Aníbal Pinto de Castro

Vida

Descendente da Casa Real de Aragão, Santa Isabel nasceu, muito provavelmente, em 11 de Fevereiro de 1270, em Saragoça. Onze anos depois, por procuração, era
realizado o seu casamento com Dom Dinis, consumado em Trancoso, em Junho de 1282.

Tornada Rainha de Portugal, Dona Isabel contemplaria Coimbra pela primeira vez em Outubro de 1282, cidade onde se recolheu após a viuvez e realizou muitas das práticas caritativas acompanhadas de prodigiosos milagres, que viriam a ter como expressão máxima a lenda da transformação do pão em rosas.

Falecida aos sessenta e seis anos, no dia 4 de Julho de 1336, em Estremoz, foi sepultada em Coimbra no dia 11 de Julho.